Atualizando McLuhan: hoje, o emissor é a mensagem
No rastro do furacão Milton, milhões de habitantes de uma realidade alternativa espalham um maremoto de fake news nos EUA
Os gringos estão perdendo a compostura.
“EU NÃO TENHO MAIS COMO EXPLICAR O QUANTO A COISA ESTÁ RUIM” - esse é o título, tudo em caixa alta mesmo, de uma reportagem publicada em 10 de outubro pelo The Atlantic. Alarmado, o The New York Times apontou, dois dias depois, que o X Twitter devolveu o acesso à plataforma para milhares de perfis que foram suspensos por divulgar desinformação e extremismo. No The Guardian, a colunista Marina Hyde lamenta: “(Chegamos hoje a um ponto) ainda mais sombrio do que poderíamos imaginar em, digamos, 2016, quando alguns alertavam sobre as tentativas de destruir a própria noção de realidade compartilhada.”
Esses e outros textos publicados pela imprensa internacional têm um mesmo ponto de partida: o maremoto de fake news que varreu as mídias sociais, na sequência da passagem do furacão Milton pela Flórida. Reportagens e artigos refletem uma subida de tom - e um certo desespero, até - dos veículos tradicionais diante da escalada de teorias da conspiração, mentiras e informações truncadas, compartilhadas de forma endêmica. O diagnóstico sugere que, empurrada por essas fake news, uma porção cada vez maior da sociedade ianque rejeita a realidade mostrada pelos canais convencionais e se abriga em um mundo alternativo, formatado por influencers de extrema direita.
“É cada vez mais difícil descrever como uma percentagem significativa de americanos estão dissociados da realidade”, afirma Charlie Warzel, articulista do The Atlantic. “É difícil capturar o niilismo do momento atual.” Ele se refere às reações online a postagens sugerindo que o furacão foi criado pelo governo Biden, boatos de que agências federais estavam bloqueando resgates e doações e imagens “comoventes” criadas por IA, divulgadas por figurões ligados a Donald Trump e à direita em geral. Não, não vou dar os links.
(Por aqui, tivemos uma prévia durante as enchentes no Rio Grande do Sul, no último mês de maio. As plataformas de mídia social foram inundadas - desculpe - por postagens alegando que o governo federal estava impedindo resgates, multando veículos de salvamento e cobrando notas fiscais de doações coletadas para os flagelados. Naturalmente, a mentirada foi usada para alimentar narrativas anti-estado estimuladas por militantes de direita. Perceberam a similaridade?)
Para o pesquisador Mike Caulfield (@mikecaulfield), a situação se agrava porque a galera criando e repassando essas fake news não o faz para divulgar suas convicções a outras pessoas. Ele nota que “a vasta maioria do conteúdo desinformativo é oferecido como um serviço para quem quer manter (o grifo é do autor) suas crenças, diante de evidências esmagadoras em contrário”. Não se trata de expor uma visão de mundo e debatê-la com quem discorda: os habitantes da realidade paralela usam a desinformação para criar o próprio mundo no qual acreditam, e convencer a si mesmos da veracidade desse mundo. É uma versão radical do velho viés de confirmação. Ou seria viés de retroalimentação?
Imagino aqui o que o velho Marshall McLuhan diria diante dessa(s) nova(s) realidade(s).
McLuhan, cês lembram, foi o pai da moderna teoria da comunicação; ao menos à época em que entrei na faculdade, seus escritos ainda eram referência (OK, lá se foram mais de 30 anos). Mesmo quem nunca ouviu falar no educador canadense deve conhecer ao menos sua frase mais famosa: o meio é a mensagem. A expressão resume a crença de McLuhan de que, na era da comunicação eletrônica, o conteúdo assume papel secundário em comparação aos canais que transmitem o próprio conteúdo.
O véio Mac adoraria conhecer a era dos influencers. O ~trabalho~ dessas fascinantes personalidades das mídias sociais confirma seu aforismo… ou parte dele. Sim, o conteúdo produzido pelos influenciadores importa menos que o canal pelo qual o acessamos ( X Twitter, Instagram, TikTok etc.). Mantemos relacionamentos diferentes com cada uma dessas plataformas, e temos diferentes modos de consumir e compartilhar os conteúdos que acessamos por meio delas. O conteúdo em si? Tanto faz, né?
Mas o panorama descrito nos parágrafos iniciais sugerem uma releitura da lição mcluhaniana. As pessoas que veem, concordam com e compartilham as fake news da extrema direita valorizam muito mais a mensagem do que o meio. A ponto de permitir que essas mensagens reformatem aquilo que elas consideram realidade. Para eles, porém, mais importante ainda que meio e mensagem, é o emissor da mensagem - ou, no jargão hodierno, o criador do conteúdo.
Para trumpistas, conspiracionistas, terraplanistas e demais “istas” à direita, ver o nome de Alex Jones, Andrew Tate, Laura Loomer ou o de qualquer comentarista da Fox News em uma postagem nas redes sociais já basta. (Encaixando na realidade brasileira: qualquer um dos Bolsonaros, Allan dos Santos, Figueiredo Neto, qualquer comentarista da Jovem Pan.) O emissor da mensagem é o que realmente importa. Se vem dessas fontes confiáveis, pensam os habitantes da realidade paralela, então não deve ser questionado e precisa ser compartilhado. É o que basta para confirmar que a “minha” realidade é a que vale. Inversamente, a desconfiança sobre as mensagens emitidas pelos veículos tradicionais é absoluta. Se vem de um jornal estabelecido, um canal de TV tradicional ou de um comentarista mainstream, só pode ser mentira.
Eis o raciocínio (?!) que leva uma pessoa a ver uma imagem como a que vai abaixo…
…e compartilha-la, mesmo depois de alertada de que não se trata de uma foto real. (Que esse alerta precise ser dado é bastante preocupante por si só.). O que induz a essa reação instintiva, irracional até, não é o conteúdo obviamente forjado ou a plataforma na qual a imagem circula. E sim o fato de a imagem vir de uma fonte confiável: um figurão da política, um influencer admirado, um parente que compartilha da mesma ideologia que eu.
Vemos, então, que a era da pós-verdade também é uma era pós-McLuhan. Talvez a frase mais famosa do pensador precise ser reformulada. Afinal, hoje o emissor é a mensagem. Mas o canadense cunhou muitas outras expressões, conhecidas como Mcluhanianismos. Uma delas, escrita há exatos 60 anos, se aplica à perfeição aos nossos dias:
“Eu posso estar errado, mas nunca tenho dúvidas.”