Os reacionários atingiram sua Meta. Literalmente
O ideal direitista da ~liberdade de expressão~ inimputável e livre de responsabilidades afinal se concretizará, com a ajuda de Mark Zuckerberg

Com cerca de 3,1 bilhões de usuários (dos quais aproximadamente 2 bilhões são perfis diariamente ativos), o Facebook é a maior plataforma de mídia social do mundo. Somando-se a essa galera os inscritos no Instagram (± 2 bilhões), WhatsApp (idem), Facebook Messenger (± 1,1 bilhão) e Threads (130 milhões), a Meta - holding que controla todas essas plataformas - tem sob seu chapéu mais de 8 bilhões de usuários. É mais ou menos o mesmo tamanho da população do mundo.
Ainda que descontemos os bots, perfis abandonados e duplicados, é gente pacacete. Os cálculos mais atualizados apontam para um total de praticamente 4 bilhões de usuários ativos por mês em todas as plataformas da Meta. Nenhuma outra organização, de tecnologia, comunicação ou de qualquer outro segmento, conseguiu impactar tantas pessoas ao mesmo tempo na história da humanidade, tanto em termos absolutos quanto em percentuais. Se pensarmos que toda essa influência foi construída em 20 anos, a partir do zero (o Facebook foi fundado em 2004), a coisa toda assume ares verdadeiramente surreais.

A companhia comandada por Mark Zuckerberg tem sofrido para lidar com as velozes transformações no cenário das mídias sociais. O apelo do Facebook junto aos mais jovens vem caindo, diante da concorrência do TikTok e outros canais. O aumento do chamado AI slop no conteúdo postado e da intervenção de bots no feed tem levantado questionamentos sobre a relevância da plataforma. Ainda assim, em 2025, para bilhões de pessoas no mundo todo, o Facebook (e as demais marcas da Meta) seguem sendo a principal (ou mesmo a única) porta de acesso à internet, usada para obter informações, entretenimento, compras, troca de mensagens, contato com empresas.
É por essas e outras que a notícia, divulgada na terça-feira (07/01), de que a Meta vai abolir os procedimentos de verificação de fatos nas postagens de seus usuários causou consternação global. Foi um banho de água glacial nas esperanças de quem ainda acreditava que as mídias sociais poderiam alavancar valores positivos como a tolerância, a cidadania, o respeito mútuo e a manutenção da democracia.
O Facebook, carro-chefe da holding, adotou em 2016 (depois de muita gritaria sobre a influência de fake news espalhadas por agentes russos na eleição presidencial nos EUA naquele ano) processos para identificar postagens falsas e/ou potencialmente danosas, acompanhados de sanções formais para os postadores de tal conteúdo. Isso tudo será substituído por um sistema de “notas da comunidade” adicionadas pelos próprios usuários. Exatamente como aconteceu no ̷X̷ Twitter.
Não é necessário ler as entrelinhas do pronunciamento de Zuckerberg para entender o movimento. (O fato de o anúncio ter sido divulgado, com exclusividade, no programa Fox & Friends, da Fox News, já entregava tudo. O talk-show é um dos favoritos pessoais de Trump.) Em sua fala, o bilionário corroborou, letra por letra, as alegações de políticos e influencers direitistas sobre a inclinação ideológica da verificação de fatos (“…os verificadores de fatos têm sido politicamente tendenciosos demais e destruíram mais confiança do que criaram”).
Postagens homofóbicas, transfóbicas, racistas e xenofóbicas terão passe livre (“Vamos simplificar nossas políticas de conteúdo e eliminar várias restrições sobre temas como imigração e gênero que estão fora de sintonia com o discurso predominante”). Conteúdos explicitamente políticos, que vinham tendo seu alcance reduzido, também serão liberados (“…estamos começando a receber feedback de que as pessoas querem ver esse conteúdo novamente. Então, vamos começar a reintroduzi-lo, enquanto trabalhamos para manter as comunidades amigáveis e positivas.”)
Particularmente preocupante para nós é a menção óbvia à interrupção do acesso ao X̷ Twitter no Brasil (“…vamos trabalhar com o presidente Trump para resistir a governos ao redor do mundo que estão perseguindo empresas americanas e pressionando por mais censura… Países da América Latina têm tribunais secretos que podem ordenar que empresas removam conteúdos de forma silenciosa.”) O arremate é inequívoco: “Agora temos a oportunidade de restaurar a liberdade de expressão”.
Exatamente como aconteceu no ̷X̷ Twitter.
As plataformas de oligarcas digitais como Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos sempre penderão ideologicamente para a direita. Bandeiras como a crença na ~meritocracia~, o individualismo exacerbado e a negação dos consensos coletivos são fundamentos básicos da era das plataformas, e caracterizam também o ideário reacionário de ontem, de hoje e de sempre. O caso específico da aliança com Trump apresenta vantagens adicionais, com suas promessas de desregulamentação em vários setores e de benesses fiscais para os ricos.
Para as plataformas de mídia social, o alinhamento ao trumpismo (e, por tabela, ao movimento reacionário global) é um pacto ganha-ganha. Em troca de quase nada - fazer vista grossa para o discurso de ódio e a desinformação apresentados como ~liberdade de expressão~ - essas empresas ganham a gratidão de Trump e a garantia de mais polêmicas e bate-bocas online. Ou seja, mais usuários logados por mais tempo, o que significa mais dinheiro.
(Creio que os bilionários se engajam na cruzada pela ~liberdade de expressão~ também por motivos mais comezinhos, como a egolatria. Ter o controle da Meta faz de Zuckerberg uma das pessoas mais poderosas que já caminharam por esse mundão véio sem porteira. De que adianta ter todo o dinheiro e poder do mundo e não poder dizer qualquer coisa para qualquer um, sem temer consequências? Ao pelejar contra a suposta censura das mídias sociais, Zuckerberg também está anunciando: “Eu aturei tudo isso - isto é, as normas mínimas de convívio social - por muito tempo. Agora vocês é que vão me aturar.”)
Elon Musk deu o caminho das pedras. Zuckerberg preferiu agir de forma menos espetacular. Como, por exemplo, contratando um Republicano (e ex-funcionário da Casa Branca sob Trump) para chefiar a área de global affairs da Meta; doando uma bolada para o fundo financeiro de posse do presidente eleito; e nomeando o trumpista fanático Dana White para o conselho de administração de sua holding.
O negócio é que a Meta tem um alcance muito, muito maior que o do ̷X̷ Twitter. A plataforma de Musk pode até contar com mais formadores de opinião e políticos com voz ativa, mas em termos absolutos é uma nanica comparada a Facebook + Insta + ZapZap + Threads. Serão bilhões de pessoas expostas a conteúdos sem moderação prévia ou verificação de veracidade, que podem ter seu alcance multiplicado muitas vezes com o impulsionamento pago e/ou réplicas de bots. Ou apenas divulgados “inocentemente” por influenciadores com milhões de seguidores.
Conforme Chris Stokel-Walker escreveu no The Guardian no dia 07/01, a decisão de Zuckerberg é um “cataclisma que vai extinguir a ideia de uma verdade objetiva nas mídias sociais”. A WIRED, citando a especialista em desinformação Nina Jankowicz, publicou que o “Facebook já contribuiu para a derrocada do jornalismo e (a decisão de abolir a verificação de fatos) será o prego final no caixão (…) O anúncio de Zuckerberg é uma tentativa de ultrapassar Musk na corrida até o fundo do poço.”
Até aqui, os esforços da Meta para conter a disseminação de conteúdos de direita falsos e inflamatórios tem tido, na melhor das hipóteses, resultados frustrantes. Na ausência desses esforços, a perspectiva é de que o ideal de ~liberdade de expressão~ imaginado pelos reacionários afinal se concretize em escala global. Um ideal no qual qualquer um pode dizer o que quiser na internet, semeando a confusão, a discórdia e o ódio, sem se importar com os impactos, nem ser responsabilizado pelas consequências, e sem enfrentar restrições em seu alcance.
Feliz 2025 a todos!