"Essa lasanha é de quê?"
Ruminações sobre um velório, um aniversário, um ídolo falecido e quatro quadrinhos que resumem minha filosofia de vida

Na semana retrasada, morreu um camarada meu. Gente fina, muito querido por muitas pessoas. Nós nos conhecíamos desde a década de 1990. Nos últimos anos não andávamos tão próximos, mas é a vida, né? Todo mundo tem se afastado de todo mundo nos últimos anos. É o que sinto, ao menos.
Não-ironicamente, a última vez que estive com ele tinha sido… no velório de um outro camarada, há cerca de três anos. Pois é, chegamos a esta fase. É a vida, né? Primeiro vamos aos enterros dos pais dos amigos, depois vamos aos enterros dos nossos pais, e depois aos enterros dos nossos amigos, e depois…
E depois? Tenho pensado muito nisso. Sempre penso muito nisso em janeiro, mês do meu aniversário. Na terceira semana de janeiro de 2026, completei 52 anos. O camarada que morreu há pouco tinha apenas 56. Penso em quanto tempo ainda tenho. Lembro que meu pai morreu aos 75. Ah, ainda tenho mais de 20 anos à frente. Então penso: nada garante que viverei tanto quanto meu pai. O mais provável é que, dado meu estilo de vida semiautodestrutivo, eu bata as botas bem antes dos 75.
“E você? Você se cuida, hein. Pelo amor de Deus, se cuida”. Ouvi isso de uma amiga, durante o velório do camarada que morreu há pouco. Tenho tentado me cuidar, tenho tentado. Tomo diariamente remédios para controlar a pressão arterial, o colesterol e o ácido úrico. Como estou acima do peso ideal, passei boa parte de 2025 saindo diariamente para correr/caminhar (antes eu ia dia sim, dia não). E segui, ou tentei seguir, uma dieta bem restritiva, para ajudar na perda de peso e na redução generalizada das mazelas trazidas pela idade.
Pois essa dieta acabou gerando um tilt existencial aqui. Em uma análise 100% pragmática, não nutro muitas expectativas sobre meu futuro. Não há perspectivas de arrebatamentos, grandes realizações, viradas dramáticas, fortunas acumuladas. Minha filha já é uma adulta. Já estou conformado com a ideia de trabalhar até morrer. Em uma análise 100% pragmática… não resta muita coisa que faça a vida valer a pena. Encontrar os camaradas que ainda resistem. Música, filmes, leituras. Viajar, quando há tempo & grana. Tentar emplacar um ou outro projetinho pessoal depois do expediente. E, claro, comer bem e beber bem. Justamente o que a dieta me impede de fazer.
A nutricionista prescreveu cinco refeições diárias severamente controladas, em quantidade e qualidade - duas colheres disso, uma unidade daquilo. A lista de alimentos proibidos parece a planilha de controle de um refeitório industrial. Álcool? 0,00 ml permitidos. Das 35 refeições previstas por semana, tenho direito a uma (1) sem restrições. Não é um dia liberado (o famoso “dia do lixo” - odeio esse termo). É um almoço ou um jantar. Para o resto da vida.
A ficha caiu mesmo quando assisti, por acaso, a um vídeo de um médico no Instagram, listando “cinco atitudes que vão te ajudar a envelhecer com saúde”, ou algo que o valha. À certa altura, o doutor diz: “Você, que tem mais de 40 anos, você acha que pode continuar comendo e bebendo tudo que quiser? VOCÊ NÃO PODE MAIS COMER E BEBER TUDO QUE QUISER!”. Essa frase me atropelou. Eu vou passar o resto da vida sem comer e beber o que quero, para viver mais tempo… sem comer e beber o que quero.
E para que? Para viver o suficiente e continuar indo aos próximos velórios dos próximos camaradas.
Vivi o suficiente para me despedir de muita gente admirável. Mais que ídolos, artistas que ajudaram a moldar minha visão de mundo, minha personalidade, meu senso de humor. Luis Fernando Verissimo foi um desses. Tenho lido seus escritos desde que nasci, ou quase. Recém-alfabetizado, eu já ria com as crônicas publicadas na revista Domingo, do Jornal do Brasil. Segui rindo com os textos compilados em livros como O Analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté e Ed Mort & Outras Histórias, que eram entregues lá em casa, cortesia Círculo do Livro. (Aliás, um dia ainda escrevo por aqui sobre a influência do Círculo do Livro em minha bibliofilia.) Folhear, na 5ª série primária, o volume 7 da coleção Para Gostar de Ler, foi uma experiência formadora de caráter.
Não escrevi um textão-elegia quando de sua morte, em agosto passado. Só publiquei uma notinha, na qual lembrava meu breve contato pessoal com o mestre. Entrevistei-o em 2011. Infelizmente, a conversa teve uma pauta bem restrita (mais que a minha dieta - rá!). O papo foi publicado em um house organ, uma revista distribuída aos funcionários de um grande banco estatal, do qual (não por acaso) Verissimo era cliente. Eu era o editor da revista e em todo número havia uma entrevistinha com um correntista famoso. Perguntei sobre a relação do escritor com a gerência, quantas vezes ele costumava ir à agência, se estava satisfeito com o atendimento, se tinha algum causo pra contar, etc.
Verissimo foi solícito mas sucinto. Falou o suficiente para preenchermos a página. Comentei que estava honrado em conversar com ele, sem me alongar; sempre tive vergonha de tietar entrevistados abertamente. Não arquivei a revista, que aliás sequer trazia minha assinatura na matéria.
O escritor viveu até os 88 anos. Passou sua última década pelejando contra o mal de Parkinson e doenças cardíacas. Um AVC sofrido em 2021 limitou sua mobilidade e capacidade de comunicação. É o caminho de todos nós, gênios e imbecis irmanados na decrepitude inevitável, com ou sem dieta, com ou sem remédios diários. Isso na melhor das hipóteses.1
Quando da morte de Verissimo, perguntei-me qual de seus trabalhos teria sido o mais marcante, entre centenas de contos humorísticos, crônicas, quadrinhos, roteiros de TV, romances. Então lembrei da tirinha que vai aí embaixo.
Essa tirinha foi incluída em uma das coletâneas de Verissimo editadas pelo Círculo do Livro, no começo da década de 1980. Sei que eu devia ter uns 10 anos quando a li pela primeira vez e nunca mais esqueci. Esforcei-me muito, mas não lembro com certeza do título do livro. Pode ter sido em A Grande Mulher Nua, originalmente lançado em 1975. O exemplar dos meus pais sumiu há décadas.
Procurei (por muito tempo) uma reprodução da tira na web e não encontrei. Concedi-me uma licença poética e remixei a obra original: recortei um desenho da Família Brasil e reproduzi o texto. Não ficou igual, mas a ideia está aí. (Espero que Verissimo me perdoe o remix.)
Quando digo que Verissimo foi, mais que um escritor admirável, uma referência constante na minha vida, essa tirinha aí é o exemplo que primeiro me vem a cabeça. São quatro quadrinhos que vão além de uma mera piada. Há infinitas ponderações existenciais a serem extraídas dali. As mesmas ponderações que tentei resumir na primeira parte deste textão. Vivemos para fazer o que nos agrada. Em determinado momento, o paradoxo: precisamos deixar de fazer o que nos agrada para viver mais. Ainda vale viver mais, sem fazer o que nos agrada?
Pode parecer bobagem, ou mesmo insensibilidade. “Tanta gente passando fome, e esse marmanjo aí reclamando de fazer dieta” etc. Só que é uma questão seriíssima para mim. Sei que a moderação traz mais qualidade de vida. Não desejo encher a cara e comer pacaralho todos os dias. (Aliás, nem que eu quisesse. Saí com meu irmão e um amigo para comemorar meu aniversário. Uns tira-gostos, alguns poucos chopes, dois uísques com muito gelo. Acordei no dia seguinte num estado lastimável.) Não quero morrer tão cedo.
Mas e a lasanha? É de quê?
Não, não quero morrer tão cedo. Essas ruminações todas se devem ao inferno astral, à deprê induzida pela morte do meu camarada, à ansiedade irracional que bate todo começo de ano - e olha que, em 2026, só não está ansioso quem não está prestando atenção. E, por que não?, pela saudade do Verissimo. OK. A gente sabe que a morte de um velhinho de 88 anos não configura uma tragédia. Viveu muito, viveu bem (a maior parte da vida, ao menos), deixou uma obra imensa em tamanho e qualidade. Se havia alguém que merecia um sincero requiescat in pace, há tempos, era ele.
Larguei a dieta e os exercícios em dezembro, mas juro que vou retomar tudo. Até me resignei a encarar uma academia. Mais tardar, depois do carnaval. 😇 Vale a pena viver com (no máximo) uma lasanha por semana? Precisamos acreditar que sim. Quem “precisamos”? Eu e meus camaradas. Aqueles que merecem um jantar aqui em casa. Modéstia à parte, faço uma lasanha excelente.
(Sobre a inevitabilidade da decrepitude, li há pouco na New Yorker uma reportagem fascinante sobre os novos tratamentos personalizados que prometem não apenas alongar a vida, mas garantir qualidade de vida bem depois dos 80 ou 90 anos. São dietas, remédios, suplementos alimentares, exames e terapias ultrahightech, rotinas de exercícios. O custo dessa vigorosa longevidade começa em algumas dezenas de milhares de dólares por ano, mas pode chegar a milhões.)






Texto fabuloso
Coincidência?
Sinal de alerta?
Algo com que realmente eu deva me preocupar?
Sexta-feira -- anteontem -- estive no velório de meu cunhado.
Foram tão impactantes a morte súbita de pessoa tão querida e o inusitado cerimonial, com direito a homenagem por um apresentador, que falou sobre a vida do morto e tocou as músicas preferidas dele, e por um helicóptero da policia civil que sobrevoou, em voos rasantes, o local da despedida (meu cunhado foi pioneiro no uso das primeiras aeronaves adquiridas pelo governo do estado, em 1983, contratado para preparar os primeiros delegados pilotos), que voltei decidido a escrever a respeito.
Houve até uma tocante simulação de inumação do esquife, ali mesmo na câmara ardente, antes de o corpo seguir, sem acompanhamento, para o cemitério de vila Alpina, onde seria e deve ter sido cremado.
Ainda não escrevi, mas você encerra sua crônica mencionando Veríssimo, sobre quem, a par de outras perdas, falei nesta crônica, por ocasião da morte do nosso Mestre:
https://open.substack.com/pub/luisalbiero/p/risos-que-se-apagam?utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web